Investigador do Instituto Superior de Psicologia Aplicada quis perceber o impacto dos pais no rendimento dos alunos. Num outro estudo, concluiu que os estudantes com más notas e que nunca chumbaram têm uma autoestima mais baixa do que aqueles que já reprovaram.

Os filhos de pais mais focados nos resultados têm piores notas do que os que se preocupam com a aprendizagem. Esta é uma das conclusões de um estudo elaborado por Francisco Peixoto, investigador do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), que quis perceber qual o impacto da atitude dos pais no rendimento dos filhos. Inquiriu 498 alunos do 7.º e 9.º anos (maioritariamente deste nível de ensino) de quatro escolas de Lisboa – 257 raparigas e 241 rapazes com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos – e dividiu os encarregados de educação em dois grupos. Os que se preocupam fundamentalmente com os resultados dos filhos e os que valorizam mais o processo de aprendizagem e não tanto as notas. A atitude dos pais tem reflexos ao nível da motivação dos jovens e nos próprios resultados escolares. O facto de os pais pressionarem os filhos para terem boas notas acaba por ter um efeito de certa forma contraproducente, uma vez que os resultados normalmente são piores do que quando os pais estão mais preocupados com o processo de aprendizagem. “Os pais devem ter mais cuidado com a pressão que colocam sobre os filhos. Essa pressão acaba por provocar níveis de ansiedade mais elevados e os resultados acabam por ser o contrário daquilo que os pais querem”, refere ao EDUCARE.PT.
O investigador explica que, no entanto, esses efeitos são “relativamente pequenos” até porque há outras variáveis relacionadas com a escola que têm muita influência. Como é o caso da motivação relacionada com as matérias que se ensinam e com os próprios professores, com as metodologias que aplicam dentro da sala de aula. De qualquer forma, o estudo revela que o processo em si, a aprendizagem, acaba por ser mais motivador do que o fim em si mesmo, o resultado. Aprender como um caminho que se constrói e não aprender com os olhos postos numa recompensa. Os resultados do estudo foram apresentados na conferência “A construção do autoconceito e da autoestima na adolescência”, que teve lugar no ISPA.
O professor Francisco Peixoto estudou também, numa outra pesquisa, o efeito do insucesso escolar dos jovens nos níveis de autoestima e concluiu que os alunos que tiram más notas durante o ano letivo e nunca chumbaram têm habitualmente uma autoestima mais baixa dos que os estudantes que já tiveram de repetir o ano. As comparações efetuadas demonstram que os alunos que nunca repetiram um ano e os que têm pelo menos uma reprovação têm níveis de autoestima semelhantes. A investigação envolveu 618 alunos do 7.º, 9.º e 11.º anos, de quatro escolas de Lisboa, com idades compreendidas entre os 12 e os 20 anos – 324 raparigas e 294 rapazes.
O autoconceito entra aqui em ação. Ou seja, os alunos que desvalorizam a escola têm tendência para investirem noutras áreas que consideram mais gratificantes, como o desporto, relações sociais e interpessoais. A autoestima é afetada na primeira repetência, depois passa a ser indiferente chumbar ou não porque o autoconceito estabilizou.
A autoestima baixa nos alunos que têm notas baixas durante o ano, mas que não chumbam. “Estão numa situação de algum receio se vão ou não passar”, refere Francisco Peixoto. “A ideia de que vão falhar faz com que a autoestima baixe”, acrescenta. A ansiedade aumenta com o aproximar do final do ano letivo. “A aproximação de um eventual insucesso provoca uma diminuição na autoestima global, por achar que se calhar vão falhar”.
Esses alunos que vivem na incerteza de chumbar ou não, contrariamente aos que efetivamente não passam, dão valor à escola, às notas e aos resultados. E o insucesso escolar, aliado a uma baixa autoestima, poderá ser uma situação preocupante. Os pais devem estar atentos a esses sinais. “Durante a adolescência, a escola ocupa grande importância e o facto de estar mal na escola pode ser compensado por outras áreas da vida”.
Ondina Freixo, professora de Biologia, não tem qualquer dúvida de que a pressão dos pais tem reflexos nas notas. “A pressão, mesmo sobre os bons alunos, cria uma ansiedade tal que, mesmo que tenham todas as competências e capacidades desenvolvidas, os leva a falhar”, comenta. Na sua opinião, os pais devem exigir trabalho e não pressionar nos resultados. Além disso, sustenta, os alunos devem ter outras ocupações e pontos de interesse para além do estudo.
Menos autoestima nos alunos que andam na corda bamba. Ondina Freixo constata que isso acontece. “Alguns alunos não conseguem entender os resultados e acabam por passar de ano. Sabem perfeitamente que não trabalharam para passar e a autoestima não sobe”, refere. E assim avolumam-se problemas e obstáculos que, não sendo resolvidos, adensam-se e dificultam a vida na escola. Os próprios pais, sublinha, que momentaneamente podem ficar contentes por os filhos passarem por uma unha negra, mais tarde percebem que “foi um erro”.
Armindo Cancelinha, professor e membro da Associação Nacional de Professores, também considera que os resultados dos estudos demonstram a realidade. “Pode ser demonstrativo da motivação intrínseca dos próprios alunos para a aprendizagem”, repara. E quando se dá mais atenção ao processo de aprendizagem as notas sobem. “Quando se valoriza mais a aprendizagem, as notas são melhores do que quando se pressiona em função de uma média ou até de um curso”, refere.
Em relação aos níveis da autoestima, Cancelinha considera que há um certo facilitismo no final do ano. “O aluno assume consecutivamente que não atingiu determinadas competências, mas que foi sendo ‘empurrado'”. E aí a autoestima baixa. Na sua opinião, há que enfrentar a realidade para o próprio bem do aluno. “O processo de retenção tem de ser claramente assumido, assumindo que o aluno não foi capaz de atingir os objetivos que lhe foram propostos”.

 

Fonte: http://www.educare.pt/educare/Atualidade.Noticia.aspx?contentid=B35E6F557828B5B9E0400A0AB80025E5&opsel=1&channelid=0

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