Compreender o aluno

Segundo o secretário de Educação de SC, é preciso aprimorar a percepção de realidade para alcançar o ensino de qualidade

“Queremos um aluno que tenha conhecimento de línguas, que tenha cultura, que seja comunicador, ético, que tenha o equilíbrio emocional de um monge oriental, que tenha iniciativa, que domine tecnologias, assim como as ciências exatas e que seja capaz de inovar”, é assim que Eduardo Deschamps, secretário de Educação de Santa Catarina, resume o desejo dos professores em relação a seus alunos. “Queremos isso, mesmo sabendo que nós mesmos não somos assim”.

No entanto, segundo ele, os professores enxergam os estudantes como indisciplinados, com baixo nível cultural, com pouco interesse por exatas e não raramente culpam esse desinteresse por qualquer problema de aprendizado que venha a aparecer, uma nota baixa, ou mesmo a dificuldade em compreender algum conteúdo.

O que falta nesses dois cenários é a percepção da realidade, enxergar quem é o aluno de hoje, para que as expectativas possam ser ajustadas. “O aluno de hoje é altamente conectado, multitarefas, globalizado, com uma elevada facilidade de interação social mediada por tecnologia”. Para Deschamps, que realizou hoje uma palestra durante a Bett Latin America Leadership Summit, no Rio de Janeiro, é preciso acertar esse descompasso entre o que se espera e a realidade para que os processos de ensino e aprendizagem sejam mais produtivos. “Tendemos a idealizar, mas esquecemos de fazer o paralelo entre o como é com o que a gente precisa fazer para chegar onde queremos”.

Com isso, o que ele propõe aos educadores de seu estado é uma quebra de paradigmas. É que façam perguntas de uma maneira diferente, para estimular pensamentos novos e respostas inovadoras, com um olhar mais aprimorado para o objetivo final. “Se eu perguntar para um educador como melhorar a educação no Brasil, certamente a resposta será genérica. Ele vai dizer que é preciso remunerar melhor o professor, equipar as escolas, melhorar a estrutura. E assim, basicamente se trabalha no insumo e não nas soluções”, analisa.

Segundo ele, a quebra do paradigma acontece ao mudar a pergunta. “Se perguntar: como garantir uma aprendizagem adequada para os nossos estudantes? Indiretamente vamos melhorar a educação, mas tiramos o foco do genérico. Quando trazemos a questão para o estudante, começam a aparecer questões como currículo e formação dos professores”, explica.

Durante sua palestra, o secretário defendeu a integração das tecnologias à educação e instigou a reflexão: “Que tipo de aluno eu quero e como a tecnologia vai interagir para garantir uma boa aprendizagem?”. Ele diz que é preciso reforçar o papel central que o aluno tem. “É para ele que a escola existe”.

O aluno como o personagem principal no processo de ensino e aprendizagem é um tópico que está cada vez mais presente entre os especialistas de educação. Deschamps acredita que isso tenha relação com as avaliações da educação básica realizadas no Brasil.

Para ele, mesmo que as avaliações não sejam a resolução dos problemas, elas induzem as pessoas a trabalhar em soluções, pois possuem resultados e diagnósticos mais palpáveis. “Ao implementar o sistema de avaliação, é possível observar a evolução da aprendizagem dos estudantes, e assim passamos a coloca-lo como ponto central do processo. Isso está se refletindo nessas mudanças, demoramos um pouco para descobrir que é em cima dele que temos que trabalhar, por isso a que a questão do currículo é crucial”.

Fonte: Portal Porvir