Pessoas Criativas

Da Índia à Finlândia, cinco ideias na área da Educação ganham destaque em evento internacional

Lições inspiradoras de Ensino podem ser encontradas em qualquer lugar do globo, não importa o PIB. E buscar mecanismos criativos para motivar os Alunos e trazê-los aos bancos Escolares é um desafio compartilhado por todos. Em meio a incontáveis iniciativas marcadas por criatividade e talento mundo afora, as cinco soluções inovadoras que O GLOBO apresenta foram premiadas em Doha, capital do Catar, durante o Wise, conferência mundial sobre inovação na Educação.

Um dos temas mais debatidos no evento foram os mecanismos necessários para levar às Escolas as 58 milhões de crianças em todo o mundo hoje desprovidas desse direito. Uma das iniciativas agraciadas com o prêmio Wise veio da Índia, país com maior população analfabeta da Terra. Lá, voluntários trabalham intensamente para atrair as meninas mais pobres às salas de aula.

Outro projeto premiado nasceu na Jordânia, mas, como trata de um desafio que vai além das fronteiras do Oriente Médio, ganha ares globais. Uma Professora local conseguiu encontrar a resposta para uma questão que poderia ser feita por um Educador brasileiro: por que ler é uma tarefa tão chata para grande parte das crianças?

Uma ONG que atua no Peru também recebeu o prêmio ao criar Escolas que se adaptam à rotina dos jovens das zonas rurais, que normalmente encontram dificuldades de frequentar as aulas moldadas pelo calendário tradicional. Atravessando o Atlântico e chegando a um dos países mais invejados do mundo em termos de Educação, a Finlândia, descobre-se que por lá se continua a lançar tendências: a meta, hoje, é fazer com que todas as crianças vivam a experiência do mercado de trabalho por um dia, uma iniciativa exaltada no Wise.

Já uma Escola particular do Haiti, vencedora de um prêmio oferecido pela Fundação Lego e a Ashoka (organização global de empreendedores sociais), vem melhorando a vida em Porto Príncipe por meio da Educação. No coração de todos esses projetos, a vontade de mudar o mundo.

ÍNDIA
Força-tarefa para levar meninas aos bancos Escolares

O acesso à Educação na Índia é um desafio de proporções gigantescas: o país tem o maior contingente Analfabeto do mundo (287 milhões, maior que a população do Brasil), sendo que, nas zonas rurais e tribais, pouquíssimas meninas têm a oportunidade de estudar. Para se ter ideia, a cada cem, apenas uma consegue terminar o que eles chamam de classe 12, o equivalente ao nosso Ensino médio.

A ONG Educate Girls resolveu encarar de frente a questão e desenvolveu um método revolucionário para levar as meninas das áreas mais pobres do Rajastão — estado onde a disparidade entre gêneros é crítica — aos bancos Escolares. Foi estabelecida uma verdadeira força-tarefa. — O projeto funciona com um grupo de voluntários chamado “Team Balika”. Eles saem em busca de todas as meninas que não vão à Escola e, depois, monitoram se elas estão frequentando as salas de aula e aprendendo. Temos 4.500 voluntários, responsáveis por inserir no sistema de Ensino 80 mil meninas — conta Safeena Husain, fundadora da ONG, que tem seis anos de existência.

Antes de matriculá-las, são feitas reuniões nas aldeias com pais, líderes, idosos e funcionários das Escolas, que elegem 15 membros para um conselho que avaliará o Ensino oferecido. E, em cada unidade, 13 meninas são eleitas como líderes. Elas recebem treinamento para impulsionar suas habilidades. A meta da ONG é ambiciosa: educar 4 milhões de crianças até 2018.

HAITI
Em ciências, melhorar a vida das pessoas vale nota

O Collège Cats Pressoir é uma instituição privada de Ensino localizada numa cidade arruinada por conflitos e terremotos: Porto Príncipe, capital do Haiti. Diante da situação catastrófica em volta, um Professor do Cats Pressoir, Guy Etienne, resolveu arregaçar as mangas e estimular o mesmo entre os Alunos em prol da melhoria da qualidade de vida dos haitianos. A cada ano, os jovens recebem uma missão especial: levantar uma necessidade do país. Conhecido o problema, eles, então, desenvolvem um projeto científico com uma solução.

Um dos resultados mais legais foi a criação de quatro padarias para o fornecimento de pão a Escolas públicas e crianças pobres de Porto Príncipe. Todos os anos, cerca de 70 Alunos, de um total de 730 da Escola, são envolvidos nesse mutirão do bem, que vale nota.

— O projeto é o exame final em ciências. Mas eles começam a trabalhar desde janeiro —afirma Guy. — Nós realmente queremos mudar a sociedade. E acreditamos no poder dos nossos estudantes para isso.

A turma pode ser bem jovem (vai dos 14 anos aos 18 anos), mas dá contribuições ao país com muita criatividade. Eles já desenvolveram um projeto de segurança com câmeras, oferecido à polícia, e reconstruíram o sistema de semáforos da capital após 20 anos sem operar. A garotada, que tem aulas de robótica, ainda bolou um robô para ser usado na limpeza das ruas (foto). Cerca de 40% dos projetos viram realidade. O modelo começa a ser replicado pelo país por meio do Ministério da Educação.

JORDÂNIA
Cientista descobre a fórmula do amor pelos livros

Seja no Oriente Médio, seja na América Latina, fazer com que as crianças se interessem pelos livros não é uma lição fácil. Cientista molecular da Jordânia, Rana Dajani começou a pensar nisso e chegou à seguinte fórmula: os pequenos se ligam pouco à leitura não exatamente pela falta de livros, mas por falta de hábito e estímulo.

A Professora começou, então, a ler em voz alta para as crianças da sua vizinhança em Amã, capital do país. Usando meios lúdicos, como fantasias, ela acabou seduzindo a garotada e também muitos adultos que passaram a fazer o mesmo em outras partes do mundo árabe, não importa onde: sob uma árvore, na Escola, numa mesquita, numa associação comunitária…

O projeto, chamado We Love Reading, desde 2010 oferece treinamento e material para quem quer implantar a iniciativa na sua comunidade. Na Jordânia, há 730 contadores de história capacitados (a maioria esmagadora de mulheres), além de 330 bibliotecas abertas pela organização.

— A leitura feita com prazer traz vários benefícios. As crianças aprendem com as experiências de outras pessoas, a entender o próximo e a ter coragem. Elas leem uma história e pensam: eu também posso. Elas ainda aprendem a se comunicar, a expressar suas opiniões. Ao ler, tornam-se pessoas melhores — diz Rana, que hoje vê sua experiência virar um movimento mundial.

As rodas de leitura hoje acontecem em lugares tão díspares como a Alemanha e um campo de refugiados na Síria.

FINLÂNDIA
De pequeno é que se aprende a colocar a mão na massa

A Finlândia é considerada o éden da Educação, mas também tem lá os seus desafios. As notas dos seus estudantes no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) estão entre as melhores do mundo (o país é o 5º em ciências), mas eles estão seriamente preocupados com a empregabilidade dos jovens, com um possível déficit de pessoas altamente preparadas e com a falta de motivação nas salas de aula.

Para envolver os Alunos desde cedo em questões como empreendedorismo, sociedade e economia, foi elaborado um conceito — que ganhou o nome de Me & My City — pelo qual os estudantes da 6ª série do currículo finlandês (entre 12 e 13 anos de idade) passam um dia numa minicidade de 500 metros quadrados fazendo tudo que um trabalhador adulto faria.

Primeiro eles recebem dez lições sobre esses temas nas suas Escolas. Em seguida, escolhem uma profissão e fazem uma entrevista de emprego. São 15 companhias finlandesas públicas e privadas participando do programa (que tem o Ministério da Educação por trás). Além de trabalhar e ganhar um salário, os jovens vão às compras e pagam impostos. Há um sistema bancário próprio, e todos se dividem entre profissionais e consumidores.

— Eles aprendem nessas minicidades sobre as diferenças entre os setores público e privado, como as companhias funcionam e ainda como fazer para entrar nelas — explica Tomi Alakoski, diretor executivo do Me & My City.

O programa começou em 2010 e já atinge 70% dos Alunos nessa faixa de idade no país.

Fonte: O Globo (RJ)